Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Cacos nas ruas

a porta fecha as abas da hora da saída e o fechar do sono
entreabertas, as luzes do céu, a claridade escorregadia
desmancha-se pelo espaço e pelo tempo estagnado

a ida a ira a cantoria
das festas da Agonia
as bombas limpas dos alicerces das minas
elas explodem no chão repleto de água infecta
as botas percebem-se molhadas pela água infecta
desmorona os joelhos
incandescem as mãos

a porta bate as unhas roídas a saída inexistente
o sono entrevado de horas ingratas e claras
paredes se encharcam de umidade e bolor

as palmas no ar o álcool nas sarjetas
os corpos nas sarjetas
o arrastar-se disfarçado de beijos
de salivas sujas de lábios sujos
quebradas as ruas
quebradas as caras

a porta quebra o entusiasmo que não há
a insônia de coluna partida a dor da luz apagada
as formigas passageiras carregando livros e pó

as garrafas agoniadas os gritos
uma falsa alegria dançada
a nudez retraída dos olhos maquiados de areia
esfregado na areia surrado no banco praticante
de torpor e lonjuras
a psicopatia teatralizada de uma madrugada solene

a porta preme a unha que sangra
as palavras empenadas como óculos quebrados
joga o estoque de amor como um vaso desajeitado
no chão como um bufão devorado pelas traças

sozinho

os infernos invadem a rua
as garrafas os fantasmas bebem os corpos
do meio-fio

sozinho

as portas são desertos
as luzes são desertas
as paredes são desertas

sangrando como gente, a sala se fecha para o lá-fora.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Pequena nota repetitiva sobre o esquecimento (im) possível

espada ensanguentada - memória
sem panos ou lágrimas que as enxugue

os vestígios antes de dormir
de acordar
pesados como petardos

todos os adeuses brilham
no reflexo dos mísseis enviados
pelo ir e pelo vir
a ordem extraviada da alma
o mudar
o esquecer
o viver

tudo muda
tudo emudece
tudo esquece

menos a mesmice
o durar

no meio da beatitude do lembrar
do viver
as fortalezas perguntarão
"poderá durar?"
Tem de durar?
Nunca se sabe.
Até porque "esqueça-me" sempre foi fácil
de dizer
até de retrair a vida.

Difícil é querer esquecer o esquecimento.

A memória é uma espada ensanguentada.

esquecer é impossível
e é impossível querer esquecer

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Canção para embalar fantasmas

não tenho torres,
seja em meu coração
ou em minha mente sem paz

ainda assim vapores,
que não são da minha respiração,
dançam como echarpes entediadas
evolando-se pelos corredores
pelos poros assustados do meu espasmo

não tenho torres
só muros
eles trepam
olham e levantam as mãos
sorriem
gargalham
espetam os meus músculos
e meus devaneios

tocam os orgãos que se espalham
nos chãos dos meus sonhos
acordados
acordam entre si
me olharem
indefinidamente
e levantam paliçadas
tecem risadas à beira da minha tortura
fazem pão com a minha loucura
despedaçam a minha infame eucaristia
no banquete sem missa negra, nem réquiem

não tenho torres
só tenho pedras
onde se deitam ectoplasmas de súcubos
restos de pesadelos acordados que bebem
água, vazio e medo
abrem as portas dos meus dedos
vem até aqui dizer que não se vão

escondem meus reflexos
por trás do meu desespero cotidiano
fecham as pálpebras
levam meu sono no enigma da paz da minha mente
agora estilhaçada
dizem que são parte de mim
minha família
meus versos e os assombros
espalhados em rostos imaginados

não sou torre
sou pedra
fortificação ao redor do músculo cardíaco
mastro usado para acalentar o pânico
cera usada para espantar sereias
silêncio da fuga
talvez eu esteja ali
na mão do espectro
embalado embalado
para não mais acordar
nem mais dormir

simplesmente dizer tchau
e sumir
como um fantasma some

 
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